Como manter-me fora do sofá?

Acordo numa manhã chuvosa. Ainda na cama, entre o som dos pingos da chuva, oiço o chilrear dos passarinhos. A natureza lá fora está feliz com esta bênção do céu. Eu não gosto de chuva, mas quando abro as cortinas da minha larga janela algo em mim se ilumina. Sente-se o limpo, o fresco, o néctar da terra.

Sorvo o café balinês ao qual ainda não me consegui habituar e, entre dentadas no pão torrado com manteiga, observo um esquilo reguila que salta de árvore em árvore. Mais ao lado, nas folhas de palmeira, descansam três pássaros dos seus voos constantes e na mini-árvore do meu terraço poisam passarinhos com penas desenhadas. Penso no quão privilegiada sou por poder desfrutar desta paisagem ao sair da cama e no quanto, nós humanos, somos feitos de insatisfação. Ou talvez seja só eu, já não sei. Como é possível estar num sítio magnífico e mesmo assim não me sentir preenchida? O que me falta? Do que sinto falta?

Durante a noite, fico a observar o ritual alimentar que decorre nas paredes da minha sala. As osgas chegam, seguindo o caminho da iluminação que as deixará mais perto do seu petisco, esses infames mosquitos. Aprecio enquanto recupero em mim as memórias de criança, em que uma osga no quintal era motivo para ir buscar a pressão de ar. Para trás ficavam as caudas a mexer sozinhas e os odiados repteis seguiam o seu caminho. Eu que sempre me arrepiei com este tipo de bicharada, hoje partilho a casa com eles. E, confesso, que de certa forma aprendi a admirá-los.

Somos animais de hábitos. Temos esta incrível capacidade de nos adaptarmos ao meio que nos rodeia e muito mais facilmente do que à partida imaginamos. Esta conclusão deixa-me a refletir, mas claramente contente por perceber como é inato em nós encontrar o conforto após sairmos da zona de conforto. No entanto, esta paragem em Bali faz-me perceber o reverso da medalha. No quão difícil é nos desprendermos de hábitos antigos. Talvez por inatamente buscar o conforto na zona de desconforto, quando parei, depois de 5 meses a viver numa rotina completamente diferente, vi-me a cair nos mesmos hábitos que tinha antes de partir. Aquela marota volta no sofá quando o João Pestana chega é prova disso.

Apercebo-me que a minha tendência depressiva se revela sempre que páro e isso deixa-me a refletir seriamente no futuro que tenho pela frente. Penso que o facto de ter conseguido saltar do sofá não invalida que volte a cair nele. E recuso-me que isso aconteça. Não basta por isso saltar do sofá, não basta sermos fortes e determinados o suficiente para avançarmos para a nossa zona de desconforto, em busca do nosso caminho. Mantermo-nos fora do sofá é o verdadeiro desafio. Como conseguir manter-me no caminho da realização e viver diariamente em consonância com aquilo que quero para mim, com a minha essência? Sinto, dentro de mim, que é um trabalho difícil.

Mas depois, sorrio e penso… se há coisa que gosto é de um bom desafio.

2 thoughts on “Como manter-me fora do sofá?

  1. Muito interessante!

    Não há soluções faceis, nem respostas feitas. Nem nada que dure para sempre. O que posso partilhar da minha experiência é que muitas vezes “sair da sua zona de conforto” é uma luta. Um combate necessário, mas que se pode confundir com uma luta contra nós próprios! A fronteira é ténue…

    Será que temos que lutar contra quem somos? Ou lutar porque não conseguimos ser o que somos verdadeiramente? Às vezes vale a pena parar de lutar… e aceitar! Uma plavra chave para se ser mais feliz… Mas também não podemos aceitar tudo. Ou será que sim? Enfim… é complicado 🙂

    1. É complicado sim. Acho que há momentos em que temos de lutar e outros em que temos apenas de aceitar e deixar-nos ir. O difícil é conseguir distinguir quando devemos fazer uma coisa ou outra. Mas nada como tentativa e erro para ir aprendendo 😉

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