Fui comer à Pizza Hut e fiquei com lágrimas nos olhos

Nos últimos dias tenho sentido uma inquietação dentro de mim, como se algo estivesse fora do sítio. Algo está a falhar e não consigo perceber o quê, e acho que isso está também a deixar-me num modo mais sensível e facilmente o coração se aperta e as lágrimas espreitam ao conta do olho.

Neste momento estou no Chile. O Chile é o país mais caro onde já estive até agora durante a viagem. E sobretudo comer fora tem sido um grande desafio. Além da comida ser cara é também uma verdadeira desgraça gastronómica para quem anseia manter-se saudável. Eu não me considero uma freak da comida saudável e muito menos desde que estou em viagem, mas comer batatas fritas todos os dias não dá para mim. Juro que já estou naquele ponto em que até dava um dedo mindinho por uma sopa vietnamita. Ao que isto chegou.

Mas, na verdade, nem é esse o ponto que interessa.

O que quero focar é que a comida aqui é cara e para conseguir comer por menos de 5€ tenho de fazer opções ainda menos saudáveis. Foi esse o motivo que hoje me levou até um centro comercial e pedi o menu mais barato da Pizza Hut, que continha uma pizza individual, batatas fritas, 3 empanadas de queijo e um refrigerante. Pontos para quem encontrar algo saudável aqui.

Apesar do meu estômago já se estar a revirar, comi tudinho porque desperdiçar comida ainda me revira mais o estômago e ainda por cima a pagá-la a preço de ouro. Só que depois de ter comido fiquei a olhar para o meu tabuleiro e as lágrimas vieram-me aos olhos.

No meu tabuleiro, já sem comida, estava uma caixa de papelão, um copo de papel, uma tampa de copo em plástico, um saco de papel e um recipiente em plástico onde estavam as batatas. Todo aquele lixo que na maioria não tinha servido para nada e teria sido desnecessário ia diretamente para o lixo de indiferenciados. Reciclagem? Aqui não sabem o que é isso.

Como alguns já devem ter percebido, o meu primeiro grande despertar de consciência durante esta viagem foi o lixo. Desde que estive no Myanmar que esta questão do lixo e da preservação do ambiente me bateu de uma maneira bastante profunda. E o pior é que em viagem ter esta consciência é também uma grande frustração, sobretudo a viajar em países sem qualquer educação ambiental. Tentei mentalizar-me ao máximo que não podia estar a focar demasiado nisso e a sentir-me constantemente culpada, mas nem sempre é fácil. Aliás, nos últimos tempos por muito que me esforce acabo sempre por sentir que podia fazer escolhas melhores e ser mais atenta e recrimino-me por isso.

Há uns dias quando dei por mim, voltei para o hostel com dois pães em dois sacos de plástico. Ontem tive de dizer 10 vezes à senhora do Starbucks que não queria palhinha e ando com um molho de guardanapos de lá no bolso porque eles servem uma sandes e colocam 10 guardanapos no tabuleiro. Depois quando penso nisto fico completamente irritada porque são exatamente estas grandes marcas que deviam ser as primeiras a tentar incutir bons hábitos ambientais e parece que cada vez só andam mais para trás. Não faz qualquer sentido servir uma pizza para comer no local dentro de uma caixa de take-away. É que neste caso nem se aplica a questão financeira, porque também lhes sai mais caro assim. Mas depois penso que eu é que tenho de deixar de frequentar estes locais e escolher sítios mais amigos do ambiente, mas aí vem a questão do início do artigo. O dinheiro.

Infelizmente, fazer escolhas mais saudáveis para a saúde e para o planeta traz custos acrescidos. E é neste dilema que me encontro. Sentimento de culpa por fazer tanto lixo ou sentimento de culpa por gastar muito dinheiro. Sei que não vou encontrar a solução, pelo menos não enquanto estiver em viagem nos moldes em que estou. Resta-me tentar ir alternando entre uma coisa e outra e pensar que quando voltar a ter uma rotina e um rendimento vou compensar ao máximo todos estes estragos que andei a fazer no planeta durante este ano.

Mas do sentimento de culpa, desse não me vou conseguir livrar. Creio que me resta aceitar que ele vai andar por aqui e que volta e meia vai querer mandar as lágrimas cá para fora.

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