Humildade, presunção e auto-valorização

Eu era aquela miúda que tinha sempre boas notas na escola. Mas mais do que boas notas, era aquele tipo de aluna que os professores adoram. Era bem comportada, atenta, participativa, responsável e apresentava bons resultados em tudo o que fazia. Acho que sempre tive orgulho em ser boa aluna, mas nunca achei que isso me tornasse especial. Até mesmo, porque sempre fui uma pessoa muito exigente comigo mesma e acho sempre que é possível fazer mais e melhor.

Foi neste contexto, andava eu no 8º ano, que a minha mãe foi a uma daquelas típicas reuniões de encarregados de educação com o diretor de turma. Não sei se com vocês se passava igual, mas, por aqui, sempre que havia uma reunião destas, nós queríamos sempre que os nossos pais nos contassem tudinho o que tinha sido falado na reunião. Por isso, assim que a minha mãe chegou a casa eu fui direitinha perguntar-lhe o que tinha dito a professora. A minha mãe estava séria e com pouca vontade de me contar, mas depois lá cedeu. Virou-se para mim e disse “Vou contar-te, mas isto não é para te subir à cabeça.”. Basicamente, a minha diretora de turma tinha dito que eu era a aluna perfeita, que tudo em mim era bom e rasgou-me de elogios. Como é óbvio, eu fiquei feliz. Todos nós gostamos de ver o nosso trabalho reconhecido. No entanto, aquilo que a minha mãe me disse ficou a ecoar em mim. Eu sabia que era boa, sabia que era reconhecida por isso, mas senti que era minha obrigação ser mais humilde do que sempre. No dia seguinte, lembro-me de na escola os meus colegas falarem-me do que tinha sido dito sobre mim, mas eu sem saber como reagir, optei por fingir que não sabia de nada.

Isto ficou incutido em mim, nunca me esqueci daquilo que a minha mãe me disse e foi algo que me acompanhou na vida daí em diante.

Cresci, tornei-me uma excelente profissional em qualquer coisa que fazia, mas apesar de reconhecer isso perante mim mesma, nunca o consegui expor perante o outro. Muitas vezes senti que, no meu trabalho, não reconheciam o meu valor como acho que merecia. Mas a verdade é que eu nunca soube ser reconhecida, sempre fiquei encavacada perante um elogio e, sobretudo, nunca soube mostrar o bom trabalho que sempre fiz, mas que acabava por ficar apenas no backstage. Nunca me soube “vender”. E quando ia a entrevistas de emprego, não sabia passar o meu valor enquanto profissional.

Quando estive a estagiar num festival de cinema, no final tive uma conversa com a produtora e mencionei-lhe que ia a uma entrevista para outro festival. Não me esqueço das palavras dela. Disse-me que eu tinha de conseguir expressar o quão boa era. Pois, quando ela me tinha entrevistado, não tinha dado nada por mim. E, no fim, acabou por perceber que eu era uma excelente profissional e que tinha realmente jeito para aquilo.

Com esta história, o que vos quero dizer é que com medo de ser presunçosa acabei por sofrer o reverso da medalha. Deixei de me auto-valorizar. E nunca ninguém me reconheceu pela minha humildade. Deixei sim de ser reconhecida por não saber mostrar aquilo que valia e não saber exigir o reconhecimento que me era devido. Deixei inclusive que se aproveitassem de mim e do meu bom trabalho, sem me darem em troca o que seria justo.

Quando eu própria não me auto-valorizo e não exijo o que deve ser meu por mérito, não posso esperar que os outros o façam.

Hoje sei que auto-valorizar-me não implica deixar de ser humilde. Quando reconhecemos em nós algo que é real, que temos provas dadas, que é mérito nosso e que não nos faz sentir melhores que ninguém por isso, qual o mal de dizermos que somos bons?  

Ninguém tem o direito de nos apontar o dedo por isso. E mesmo que o façam, não significa que estamos errados.

Tal como eu, sei que muita gente sofre do mesmo. A nossa própria sociedade não sabe reconhecer o mérito e acabamos por achar que isso é normal.

Por isso, deixo-te o desafio de refletires se estás realmente a auto-valorizar-te. Ou se estás a deixar de fazer algo ou de ser reconhecido por algo por achares que pode ser presunção.

Não deixes que isso te limite. Valoriza-te e exige aquilo que mereces.

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