Paixão – um combustível natural

Eu sempre fui uma pessoa movida pela paixão. Desde nova que sou uma pessoa insatisfeita, faz parte da minha natureza, e viver intensamente faz-me sentir mais preenchida. Quando sinto paixão por algo dou tudo de mim, e mais do que isso, sou feliz a dar tudo, sou feliz a muitas vezes sacrificar áreas da minha vida e sou feliz a perder o equilíbrio, que só eu sei o quanto preciso dele. A paixão é, por isso, uma filha da mãe. Consegue dar-me tudo, fazer-me sentir tudo, mas é completamente impossível viver com ela a latejar constantemente dentro de mim. E quando ela se vai, o que fica? Fica uma depressão medonha, uma ressaca, um vazio tremendo. Mas uma coisa é certa, nunca fica arrependimento. Nunca abriria mão duma paixão matreira por uma tranquilidade desenxabida.

E porquê toda esta ode à paixão?

Porque nos últimos anos ela deixou de dar o ar da sua graça, seguiu outras paragens e esqueceu-se de mim. E eu fiquei perdida num interior frio e cinzento, esqueci-me o que era sentir, perdi a emoção e deixei de viver. Estive morta demasiado tempo. Apercebo-me agora. Quando iniciei esta viagem, comecei por dedicar-me a atividades novas e intensas. Queria desesperadamente sentir. Não imaginam qual a minha frustração quando fiz zippline pela primeira vez e não senti nada. Absolutamente nada. Nem ansiedade, nem medo, nem alegria, nem o coração a bater. NADA. Eu estive tanto tempo morta que deixei de saber viver, deixei de saber sentir, deixei de sentir emoções. Fiquei seca, vazia, fria. Uma pedra autêntica.

Quando penso nisto e olho para trás, questiono-me como consegui ficar tanto tempo a (sobre)viver assim. Não quero identificar-me com essa Neuza que se deixou ficar, que se deixou morrer. Mas depois lembro-me que essa mesma Neuza conseguiu por ela mesma dar a volta por cima, ganhar forças para saltar do sofá e ir atrás da paixão, nem que para isso tivesse de correr o mundo todo. E quando penso nisso, encho-me de orgulho de mim mesma.

Vim para a Ásia e consegui encontrar a paixão. Quase como por magia consegui voltar a sentir emoção, a sentir borboletas na barriga e o coração a latejar. Voltei a ser cheia de tudo e a querer conquistar o mundo, o meu mundo. Encontrei-me a mim mesma, encontrei a minha verdade. E encontrei uma paixão muito específica, que esteve ao meu lado durante tanto tempo e nunca a deixei entrar. Percebi que sou incrivelmente apaixonada pela Natureza, que ela tem a capacidade de me fazer palpitar o coração, de me fazer sorrir, de me inspirar, de me tornar uma pessoa melhor, de me curar. No meio da Natureza tudo faz sentido, tudo se alinha, tudo é mágico e maravilhoso. Quando olho para trás, lembro-me que foi exatamente no meio da Natureza que tive uma epifania e percebi que o caminho a seguir era esta viagem. Nesse dia, misturadas com a chuva as lágrimas invadiram-me. Eram lágrimas de emoção. Tive um sinal, a Natureza iluminou-me e o meu coração aprovou tudo com uma certeza que nunca tinha sentido antes na minha vida.

E o melhor de tudo é que esta é uma paixão doce. É uma paixão que se encaixa na minha vida e que me serena tanto quanto me faz vibrar.