Sair da zona de conforto também tem limites

O ano aproxima-se do fim, eu já levo 8 meses de viagem e segundo a numerologia encontro-me a fechar um ciclo importante (mês 9 de ano 9). Torna-se, assim, um pouco inevitável sentir necessidade de fazer um balanço deste ano, mas hoje em particular quero focar uma evolução muito importante em mim que tive oportunidade de testemunhar nos últimos dias.

Eu sempre fui uma pessoa muito reservada e a vida social nunca foi um dos meus fortes, nunca me senti confortável em meios com muita gente desconhecida e sempre preferi os meus núcleos pequenos. Quando parti nesta viagem sozinha questionei-me se me iria abrir mais ao mundo e tornaria-me uma pessoa mais social para colmatar o facto de ter vindo sem companhia. Mas o mais engraçado é que aconteceu exatamente o contrário. Vim sozinha e senti mesmo uma grande necessidade de viver a minha viagem sozinha, de desfrutá-la apenas comigo mesma. E acho que muito por isso, esta viagem se tenha tornado numa viagem tão profunda ao meu interior e tão cheia de descobertas sobre mim mesma.

No entanto, neste remexer dentro de mim uma das coisas que sem dúvida percebi que tinha de melhorar em mim eram as minhas interações sociais e em Abril quando estava em Sapa no Vietname, conheci uma rapariga que era portuguesa mas estava há muito tempo emigrada em França. Conhecemo-nos num trekking que fizemos em Sapa e como estávamos as duas sozinhas, ela perguntou-me se eu queria ir dar uma volta de mota com ela no dia seguinte para vermos o resto da zona. A minha primeira reação foi querer dizer não, mas depois lembrei-me que queria melhorar a minha sociabilidade e acabei a dizer que sim. Achei que seria bom para mim forçar-me a ir e sair da minha zona de conforto. No dia seguinte, estava completamente desconfortável, não me apetecia absolutamente nada passar o dia com outra pessoa, com uma pessoa que praticamente não conhecia. Os meus valores da liberdade e da individualidade estavam a fervilhar porque esta decisão ia completamente contra eles. Mas como nada acontece por acaso, nesse dia acabei por não conseguir alugar mota no hostel o que me obrigou a ir à procura de um sítio para alugar mota e a ficar incontactável, sem wifi. Isto acabou por ser o sinal que eu precisava para dizer não e disse à tal rapariga para ir sem mim. E confesso que quando tomei esta decisão, senti um alívio tremendo. Nesse dia, acabei por seguir o meu caminho sozinha e visitei a cascata que mais adorei em toda a viagem. Conectei-me profundamente com a natureza e tive imensos momentos de clarificação sobre mim mesma. Foi um dia memorável e só o foi porque estava sozinha. Se tivesse acompanhada nada do que aconteceu dentro de mim tinha acontecido. E percebi nesse momento, que não tinha de forçar nada. A minha viagem era comigo mesma e era assim que tinha de segui-la, era esse o formato certo, era isso que estava a precisar naquele momento.

Desde este dia que nunca mais senti problemas em dizer que não sempre que surgia algum convite para me juntar a alguém para fazer alguma atividade. Se queria fazê-la sozinha era a isso que tinha de me manter fiel. E foi assim que segui sempre tranquilo e que tudo fluiu às mil maravilhas.

No entanto, na semana passada quando chegou o momento de começar a fantástica tour pelo Salar de Uyuni, apercebi-me que ia ter como companheiros de viagem mais 3 viajantes a solo, todos brasileiros. Inevitavelmente a mesma língua uniu-nos de imediato. Passados 3 dias juntos já éramos unidos e vim para San Pedro de Atacama com dois deles. Logicamente, eles propuseram logo juntarmo-nos para fazermos as tours juntos o que iria facilitar bastante os o custos. Ao contrário do que aconteceu em abril, não me senti desconfortável com esta opção. E lá fomos nós os 3 rondar as agência a arranjar um pack de 3 dias intensos pelo deserto de Atacama. Foi incrível como tudo fluiu tão bem para mim. Passar estes dias com outras pessoas, tomar decisões em conjunto e por nenhum momento sentir a minha liberdade ou individualidade atacadas. E, confesso, foram três dias maravilhosos em que me soube mesmo bem ter companhia.

Isto permite-me concluir que tudo tem o seu momento certo, não vale a pena tentarmos forçar mudanças drásticas em nós, naquilo que nós somos. Quando estamos alinhados e quando estamos bem connosco mesmos, as coisas acabam por fluir sem esforço, de forma natural e espontânea.

É importante sim sairmos da nossa zona de conforto, mas apenas esticarmos o suficiente para crescermos e não esticarmos demasiado ao ponto de cairmos do precipício.

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