Sobre a Minha Viagem pelo Mundo

porque decidi viajar pelo mundo


Corria o ano de 2013 quando vi uma entrevista com a Raquel Ochoa a apresentar o recente livro dela “O Vento dos Outros” que contava a viagem dela a solo pela América do Sul. Fiquei fascinada e de imediato fui comprar o livro. Amei o livro, e a parte em que ela descreve o que sentiu no Machu Picchu tocou-me ao ponto de tomar duas decisões. A primeira, que queria ir ao Machu Picchu no ano seguinte e, a segunda, que queria fazer um curso de escrita de viagens ainda nesse ano. Pois bem, quis a vida que eu não fizesse nem uma nem outra.

Inscrevi-me no curso de escrita de viagens para o mês seguinte, mas como não houve inscritos suficientes o curso não abriu e eu acabei a fazer um curso de escrita criativa que adorei.

Após decidir que queria ir ao Muchu Picchu, comecei ferozmente a juntar dinheiro e, confesso, nunca me soube tão bem ser poupada. Mas a vida é soberana e quis mostrar-me que às vezes temos de agradecer por estar vivos. No dia 1 de fevereiro de 2014, tive um valente acidente de carro do qual saí apenas com arranhões e uma segunda oportunidade de viver. Mas já o meu carrito foi diretamente para a sucata. Como diz a minha avó, vão-se os anéis e fiquem os dedos, e o mais importante era estar bem. Mas como estava a tirar o mestrado à noite nesta altura, precisava mesmo de um carro e o dinheiro que tinha entusiasmadamente poupado para a viagem ao Peru foi para pagar a entrada de um carro novo. Decidi seguir o meu coração, comprei um carro lindo de morrer, mas caro o suficiente para me deixar em modo sobrevivência nos três anos seguintes. Viagens deixaram completamente de ser uma possibilidade para mim e as férias continuaram a ser low cost no meu querido Alentejo.

Passados três anos, acabar de pagar o carro coincidiu com a minha fase de auto-descoberta e decidi resgatar a ideia de fazer a viagem que não tinha conseguido fazer há três anos atrás. E quando voltei a pensar na viagem, o meu coração vibrou e senti aquele entusiasmo que tinha sentido em 2013, aquela ânsia de querer tanto viver esta experiência. Só que depois veio o meu lado racional e questionou-me se achei que fazia sentido gastar tanto dinheiro para 3 semanas de viagem. Era uma fortuna para mim, e 3 semanas, por mais enriquecedora que fosse a experiência, ia saber a pouco para mim. Queria mais, o meu coração pedia-me mais. Borbulhou na minha mente a volta ao mundo em um ano. O meu lado racional comparou os valores e viajar 3 semanas não compensava. Por 4 vezes mais de investimento conseguia viajar durante um ano e não apenas 12 semanas.

A somar a estes raciocínios a minha atenção seletiva apurou-se e parecia que tudo à minha volta me estava a enviar sinais. Ora era um filme na TV, ora um blog de viagens que encontrava, ou alguém do meu facebook que tinha ido fazer uma grande viagem, ou uma entrevista na TV de alguém que já o tinha feito. A ideia começava a crescer, e houve um dia que estava no meio da natureza a pensar na vida e que pensei na única coisa que eu naquele momento tinha a certeza que queria para o meu futuro. A única coisa que eu sabia que queria era ter filhos. E nesse momento fez-se um clique. Eu estava quase com 30 anos, tinha acabado de terminar um namoro e queria ter filhos. Mas para ter filhos eu tinha antes um longo caminho de construção e naquele momento voltar a pensar num relacionamento estava fora de questão. Naquele momento eu estava completamente livre, não tinha nada nem ninguém que me prendessem onde estava. E se eu queria ter filhos, aquele era o momento certo para ir viver para mim mesma, para experienciar a liberdade ao máximo. Era o momento ideal. E era o agora ou nunca. Se queria viver esta experiência pelo mundo antes de ser mãe, não podia adiar mais. E em milésimos de segundo tudo se começou a alinhar na minha cabeça, o meu coração disparou e senti uma certeza doida de que era mesmo esse o caminho. Eu ia viajar pelo mundo durante um ano, decidir que rumo profissional queria dar à minha vida durante a viagem e quando voltasse começava a construir a vida certa para mim e que me permitisse um dia ter filhos.

Foi assim que decidi fazer uma viagem com a duração de mais de um ano pelo Sudeste Asiático e pela América do Sul.  O meu objetivo inicial era começar a viagem dia 2 abril de 2018, após o meu aniversário, e regressar antes do aniversário seguinte no final de março de 2019, terminando a viagem no Brasil de forma a passar lá o carnaval.

Comecei a poupar dinheiro, mas cedo percebi que teria de vender o carro. Hoje penso que tanto sacrifício para o pagar foi completamente recompensado pela venda dele me permitir estar aqui hoje. Às vezes penso que se nunca tivesse tido o acidente, se nunca tivesse comprado um carro melhor e mais caro, nunca tinha conseguido ter dinheiro para fazer esta viagem. Pelo menos gosto de olhar para trás e perceber que certas coisas más que aconteceram permitiram hoje uma coisa muito boa, atrevo-me a dizer, a melhor da minha vida.

Também algumas circunstâncias fizeram-me decidir antecipar a viagem, e acabei por dar início à minha aventura no dia 28 de janeiro de 2018 com destino a Bangkok.

Mais de 6 meses já correram e além de já ter vivido experiências incríveis, o melhor passou-se dentro de mim. Hoje conheço-me melhor, estou mais conectada comigo mesma e já descobri qual o caminho que quero dar à minha vida. E o melhor de tudo, reaprendi a viver. A viver a sério e não apenas a sobreviver, como fiz nos últimos anos da minha vida.

Até ao momento o meu roteiro foi o seguinte: Tailândia Sul, Myanmar, Tailândia Norte, Laos, Vietname, Cambodja, Malásia Ocidental, Singapura, Malásia Borneo, Indonésia.

E, no dia 27 de agosto de 2018, sete meses depois, deixo por fim a Ásia com destino ao Peru, onde espero ter finalmente possibilidade de visitar o Machu Picchu e realizar assim um sonho.  

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